sábado, 16 de outubro de 2010

 Vejo homens erguidos, diante de seres gigantescos e feéricos; vejo homens se movimentando com naturalidade, perdidos em si, alheios ao universo, seu interior é o universo.
Há girassóis suspensos na noite, altivos como cataventos,a seu favor.
Há girossóis em meu peito, recolhidos de um tempo carnal, de um tempo em  fim, ilusoriamente infinito, um tempo real.
Talvez eu seja imperecível, mas não agora, hoje sou temporária, filha do tempo a ele rendida, a seus segundos furtivos, a seus segundos finais.
E não há mais porque se deter, não há mais porque se dar.
Tenho sido protegida e guiada, não há orixá que me valha, não há santo que me carregue, meu guia é Emanuel.
Esse corpo que me guarda desfar-ce-a, nadarei em águas negras cercada por algas verdes que tocando meu corpo não me queimarão, dançarei extinguindo meus demônios, serei liberta, progressivamente liberta e o que antes era intransponível será caminho natural. Direi outras línguas e ouvirei outros sons, será real como o vento que circula em meu corpo; é real.
Sou dele e ele é meu.
E quando for o tempo,
no momento certo,
amarei.

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

Mais.

Há paz nos caminhos já vistos, na terra que sempre se sentiu através da planta dos pés, nas vozes da infância. Há paz sobre os peitos em guerra, no Deus que não se conhece, a paz.
Comi a areia na qual não deveria tocar e meu peito antes movediço, agora inerte é pedra. Vou me cercar de mar numa oração. Meus lábios de Jorge não pronunciam o amor, entendem outros sons e em línguas não ditas me expresso. Ouço meu nome ser dito por vozes que desconheço (talvez meu antepassados que num eco me chamam em regresso, num ciclo) não sei o que significam.
Movimentos vazios que quase não são vistos por meus olhos distraídos, olhos em fúria? Não mais, hoje vejo, em paz.

terça-feira, 18 de maio de 2010

Fragmentos...

Estou cansada do amor alheio.

domingo, 25 de abril de 2010

Insólito.

Sempre que alguém me olha daquela maneira fico imaginando o que há de errado em meu rosto. 'Talvez um de meus olhos esteja caindo da óbrita ou haja sangue escorrendo por meu nariz ou ainda meus lábios que de repente ganharam um carnudo extremo' (eu disse extremo). Detalhes que deixei de perceber por pura distração, por toda distração. Procuro um espelho e quando percebo meu rosto intacto num alívio continuo não entendendo nada.

quinta-feira, 4 de março de 2010

Natureza.

Fora do peito, dentro da boca, num sopro de fúria. Pelos orifícios do nariz como fumaça, lançada dentro do corpo escapa, incontida, escapa.
Eu quis contê-la, segurá-la em mim, calá-la. Mas como romper os segundos de força se o búfalo que trago em meu peito não me deixa, tão pouco dorme? Mostrasse através de meus olhos numa ilusão imagética percebida como realidade, sentida como fogo num calor que não se apaga. Um prazer inalienável, a água que não deixo de beber e minha pele pulsa num ritmo de maracatu, que está nas pontas de meus dedos, no cerne de meus ossos, nas plantas de meus pés, não se pode conter, escapa.
Expõe-se em carne, entre águas, o apego do peito, olhos fundos, movimento, volátil, efêmero, é pétala, desperta e fluí quebrando a marcação do tambor, libertando o som antes preso por cordéis de ritmos até então eternos, agora soltos, perdidos no ar. 
Eu que fui Maria, filha do mar não posso mais com peso de meu corpo, sou tomada pela areia que silienciosamente o cerca, sem cautela e me vejo repleta de grãos que não cabem nos fios de minha alma.
Carne que queima, fogo de sopro, alma que vai sem nexo de paz. Seria fogo se não fosse água. Seria água se não fosse fogo.

terça-feira, 30 de junho de 2009

Cavalo-de-pau.

E sou levada, conduzida pela mão à minha natureza.
Em silêncio, numa linha vertical, despida através de movimentos inconscientes e convidada a olhar de perto os cavalos em campos de algodão.
Eles passam pelos capulhos abertos a trote, em galopes e seguem sem despertá-los. Livres na relva, cavalos-de-pau. Sedutores em seus pelos escuros, vivos, erguidos ao redor de mim, alheios a terra que supostamente lhes remete vida, mas que na verdade é terra, incerta e infiel.
Eles seguem por cima dela, numa dança incontida, formando um novo Zodíaco de silêncio e emoção.
Cavalos intemporais, destituídos de fraqueza, despedidos e quebrados em pedaços que não serão recolhidos aos poucos.
Cavalos fragmentados, à revelia. Seus pelos opacos misturados à terra pequena tornam ao grão que o vento ergue confundindo meu corpo que ereto não se desfaz, permanece preso ao chão numa comunhão indesejada.
Esse corpo ruirá, mas antes ver-se-ão capulhos, cavalos e campos absorvidos em si numa intimidade tal que julgar-se-á amor.
E então exibido nu em sua vã beleza iluminada cairá quebrando os signos e desfazendo os sons que estiveram no ar.

segunda-feira, 29 de junho de 2009

Eu, Berenice.

Cheguei, ela já estava lá. Me olhou com olhos curiosos, descobrindo novos olhos.
Respondi a seu desejo e perscrutei aquele rosto. Pálido, fraco, com maçãs artificialmente rosadas.
Os olhos caídos, ressaltados apenas por aquelas sobrancelhas alaranjadas, os cílios e os cabelos no mesmo tom. Mas o que havia de mais bonito nela era aquele nariz, grande e quebrado no início. Combinava com seus olhos mortos.
Enquanto isso ela me examinava. Eu em tudo diferente. Os olhos grandes, a pele escura, o nariz pequeno, os cabelos pretos presos por um coque no alto da cabeça. Certamente exclamou meus cílios.
Cinco segundos, seis no máximo, que não se apressaram em passar. Eu fiquei com um pouco da beleza dela em mim.
Berenice!