segunda-feira, 23 de abril de 2012

Livrai-me de todo mal.

e na verdade esse silêncio tão questionado é mais sobre mim do que sobre qualquer outra coisa.
Por onde afinal tem ido minh'alma enquanto me deito, enquanto caminho?
Tudo tem parecido tão marrom, com outro tom de vida e tenho sentido saudades de Deus.
Por que afinal meu coração se distancia e se perde tantas vezes se já sei aonde ir?
Na verdade esse silêncio é mais sobre um observar interno do que sobre o irmão que encolhe a mão, é mais sobre um ouvir interno do que sobre o barulho provocado pelas crianças que se encontra quando se chega em casa após um longo dia de trabalho, adultas inquietas que são.
mais sobre porque ficar afinal de contas. A vida é tão quebradiça, não é mesmo?
Aqui estamos nós e de repente não estamos mais. Não tenho sentido medo da morte, esse medo tive quando era bem mais jovem, hoje tenho sentido... eu não sei, não sei que palavra usar.
E a água que me molha o rosto não é por temor, acho que é minha alma me dizendo que quer o colo de Deus. Iê badalorabá iê má. Meus pés não se entendem com meu coração, acho que é hora de parar. Ficar quietinha ouvindo minha respiração, ouvindo o Seu coração.
E na verdade talvez isso seja sobre tua compaixão e bondade Senhor que mesmo me conhecendo tão profundamente em momento algum deixou de me amar.
Quanto mais eu aprendo sobre mim mais entendo que não há ouro, nem prata que se comparem ao silêncio de Tua presença. E enquanto tudo o que eu quero é dançar novamente para alegrar teu coração meus pés me conduzem para uma estrada na qual não posso ir.
Nenhum de nós pode, nenhum de nós deveria ir.
E na verdade é sobre o que há dentro de meu coração que falo, não necessariamente do que ele está cheio. Esse silêncio é para ouví-lo e ele me diz que só quer a Ti.
Nem todo o barulho do mundo será capaz de abafar o desejo de meu coração.
Quanto mais eu me cerco e me agarro ao que me rodeia mais evidente isso fica e parece tudo tão vazio. Parece que seremos só nós dois até o fim.
Há de ser profundo tudo o que for puro.
Tu tens me dito a cada amanhecer,
e eu tenho te dito:livrai-nos do mal, do perigo e da morte.
Livrai-me do mal, do perigo, da morte e de mim mesma.
Livrai-me de mim.

quinta-feira, 19 de abril de 2012

Fragmentos...

de realidade: para homens reais é tudo o que se tem.

terça-feira, 17 de abril de 2012

Campos abertos.

 Acorde, é preciso ver os lírios nos campos.
Onde você estava enquanto a chuva caía?
O almoço será servido à luz do meio dia e você ainda dorme!
São teus olhos que estão distantes ou tuas mãos que não seguram mais as guias?
Acorde, é hora de beber da água que saí do corpo de teu irmão, é tempo de levantar-se.
Onde estivesse enquanto os sons invadam a casa, enquanto a luz se expandia na sala banhando de amarelo os que ali estiveram? Onde estivesse enquanto as imagens eram construídas retratando com familiariadade homens que tu não conhecias? Quem eram aqueles seres pintados de preto profundo em poses inusitadas com interferência de cores contrastantes que estavam paralisados sobre a tela escura? Eles te foram exibidos enquanto teus olhos sequer se movimentavam. Quem eram eles? Parte da loucura de Basquiat que se expressando em seus traços infantis te presenteou com uma obra inédita? Ou será que essa não o era e que apesar de nunca tê-la visto antes já a visse antes? Como no sonho no qual andavas por ruas estranhas e te escondias em uma espécie de cúpula e depois fugias assustada por novas ruas estranhas? Descobrisse ao passar rapidamente de carro que a cidade é Caucaia e o sonho foi real!
Por onde tem ido tua alma enquanto teu corpo fisicamente descansa? Acorde, é preciso ver os lírios nos campos. É preciso andar descalça ao lados de flores vivas, ao lado de flores vivas. Eles virão em tempo, você sabe disso, não sabe? Nada escapa ao que deve ser.
Eles virão em tempo e você esperará todos os dias enquanto for dia e todas as noites enquanto for noite, até que seja dia. Enquanto isso acorde, é preciso ver os lírios nos campos. É preciso ser maior. Olhar-se-ão de igual para igual e são pequenos como grãos apesar de serem mar. Seu espírito saberá o que é dito. Você ouvirá? Veja os lírios nos campos.
Prepare a ceia e se alimente entre os seus, veja os lírios nos campos. Isso demorará a se dar.
Serás outra quando o for, quando for tempo outra serás.
Preserva em teu peito o lírio no campo e em teus olhos a espera, tudo se dará em lírios, em campos abertos, em salas ensolaradas, em ruas estranhas, em peitos irmãos.
Veja os lírios nos campos.

segunda-feira, 16 de abril de 2012

Maria.


Elas parecem diferentes, mas carregam os mesmos olhos pretos e o mesmo peso no olhar.
Uma delas fala baixo, tem voz mansa, é doce, delicada. Chama-se Maria, mas todos a chamam de Mariazinha. Ela deve ter uns quinze anos, tem coração de criança e espertos olhos de menina! Sua inteligência é acima de tudo emocional, Maria é um doce com olhos de jabuticaba.
Já Maria Malagueta não é flor que se cheire, como diria sua mãe. Desde menina fora arretada, discutia com adultos, reclamava, respondia, parecia o tempo todo que iria fugir a qualquer momento, sumir num pé de vento! Cresceu séria, calada, esperta, olha o outro como quem vê a alma e desarma qualquer ser vivo; mulher forte, olha de frente, abre o peito não tem medo de bicho algum, é um pequeno touro de briga, não descansa nunca, tem  vinte anos, mas parece que já viveu cinquenta e um!
Maria Bicho do Mato sempre se escondeu de gente! Só tirava foto olhando para os pés e nunca saía de casa sem a mãe. Não havia pai, irmã, tia, avó ou deus que valha que lhe fizesse soltar a mãe. Maria Bicho do Mato cresceu filha protetora, evitando estranhos e amando animais. É Maria filha da mãe e como tal só quer colo, só quer colo.
Maria Sabiá era uma peste destruía qualquer coração desprevenido, não por ser bonita mas por ser Maria. Ela tinha aquele viço no olhar, um sorriso de canto, um sacodido de ombros, uma voz doce, uma gargalhada farta e olhos gigantes cheios de energia. O moço nem percebia que estava sendo enrolado quando via já havia caído na conversa de Maria. E lá ia ela rindo de mais um coração tolo. Maria Sabiá era boa menina, não achava que fazia mal, apenas que se divertia.
Mas havia uma que era diferente de todas as demais. As outras Marias não conversavam com ela, ela não deixava espaço para diálogos era sempre silenciosa e objetiva. Não se sabia o nome dela, não parecia Maria, não parecia nada! Tinha a mesma cor, os mesmos cabelos, os mesmos traços, mas o olhar era diferente! parecia intacto, firme e nada mais. Ela nunca teve medo, nunca teve compaixão. Inteligente, nunca se curvava, nunca se deixava tocar. Havia sumido por muito tempo, tomaram-na por morta, enterrada sem nome. Mas um dia ela voltou!
Foi quando Maria Serena estava sofrendo perdida em lágrimas tadinha, era dor de amor!
 Maria Serena queria saber quem havia inventado o amor, achava que o dono de tal impropério deveria ser processo pelo ato indecoroso e sofria por não poder culpá-lo, afinal o desconhecia. De todas as Marias foi a única que conheceu o amor e que com ele brigava, as demais o cumprimentavam educadamente quando ele por perto passava. É que Maria Serena era fácil de ser fisgada, um prato cheio para sentimentos profundos. Tinha a característica de querer conhecer até o fim tudo quanto era sentimento e diante disso perdia a razão, agia sem pensar, diminuía, quase sumia diante da emoção. Maria Serena era passional, amava até o fim e quando sofria perdia até os quilos que não tinha! Essa desconhecia a razão!
Maria Encantada era calma como o vento que sopra na noite, tranquila de tudo; sabia dos sons  inauditos, das palavras que não foram pronunciadas, via seres que nenhuma Maria via. O que fazia com que as demais achassem que ela havia sido enfeitiçada ao nascer, mas não tinham medo dela pois sabiam que seus olhos eram bons assim como seu coração. Maria Encantada só queria conhecer os átrios de Deus, não se importava com mais nada, mas sempre entrava em conflito com Maria Sabiá que vira e mexe tentava lhe tirar a paz de espírito.
Maria hoje não sabia quem era, se era sul, se era norte, se não era.
Maria só queria que todas essas Marias silenciassem por cinco dias, para que assim e então ela pudesse encontrar a rosa que todas desejavam, mas não lembravam onde haviam deixado.
Ao encontrá-la Maria sairia de casa e não mais voltaria seria a hora de compreender quem era Maria.