domingo, 25 de abril de 2010
Insólito.
Sempre que alguém me olha daquela maneira fico imaginando o que há de errado em meu rosto. 'Talvez um de meus olhos esteja caindo da óbrita ou haja sangue escorrendo por meu nariz ou ainda meus lábios que de repente ganharam um carnudo extremo' (eu disse extremo). Detalhes que deixei de perceber por pura distração, por toda distração. Procuro um espelho e quando percebo meu rosto intacto num alívio continuo não entendendo nada.
quinta-feira, 4 de março de 2010
Natureza.
Fora do peito, dentro da boca, num sopro de fúria. Pelos orifícios do nariz como fumaça, lançada dentro do corpo escapa, incontida, escapa.
Eu quis contê-la, segurá-la em mim, calá-la. Mas como romper os segundos de força se o búfalo que trago em meu peito não me deixa, tão pouco dorme? Mostrasse através de meus olhos numa ilusão imagética percebida como realidade, sentida como fogo num calor que não se apaga. Um prazer inalienável, a água que não deixo de beber e minha pele pulsa num ritmo de maracatu, que está nas pontas de meus dedos, no cerne de meus ossos, nas plantas de meus pés, não se pode conter, escapa.
Expõe-se em carne, entre águas, o apego do peito, olhos fundos, movimento, volátil, efêmero, é pétala, desperta e fluí quebrando a marcação do tambor, libertando o som antes preso por cordéis de ritmos até então eternos, agora soltos, perdidos no ar.
Eu que fui Maria, filha do mar não posso mais com peso de meu corpo, sou tomada pela areia que silienciosamente o cerca, sem cautela e me vejo repleta de grãos que não cabem nos fios de minha alma.
Carne que queima, fogo de sopro, alma que vai sem nexo de paz. Seria fogo se não fosse água. Seria água se não fosse fogo.
terça-feira, 30 de junho de 2009
Cavalo-de-pau.
E sou levada, conduzida pela mão à minha natureza.
Em silêncio, numa linha vertical, despida através de movimentos inconscientes e convidada a olhar de perto os cavalos em campos de algodão.
Eles passam pelos capulhos abertos a trote, em galopes e seguem sem despertá-los. Livres na relva, cavalos-de-pau. Sedutores em seus pelos escuros, vivos, erguidos ao redor de mim, alheios a terra que supostamente lhes remete vida, mas que na verdade é terra, incerta e infiel.
Eles seguem por cima dela, numa dança incontida, formando um novo Zodíaco de silêncio e emoção.
Cavalos intemporais, destituídos de fraqueza, despedidos e quebrados em pedaços que não serão recolhidos aos poucos.
Cavalos fragmentados, à revelia. Seus pelos opacos misturados à terra pequena tornam ao grão que o vento ergue confundindo meu corpo que ereto não se desfaz, permanece preso ao chão numa comunhão indesejada.
Esse corpo ruirá, mas antes ver-se-ão capulhos, cavalos e campos absorvidos em si numa intimidade tal que julgar-se-á amor.
E então exibido nu em sua vã beleza iluminada cairá quebrando os signos e desfazendo os sons que estiveram no ar.
Em silêncio, numa linha vertical, despida através de movimentos inconscientes e convidada a olhar de perto os cavalos em campos de algodão.
Eles passam pelos capulhos abertos a trote, em galopes e seguem sem despertá-los. Livres na relva, cavalos-de-pau. Sedutores em seus pelos escuros, vivos, erguidos ao redor de mim, alheios a terra que supostamente lhes remete vida, mas que na verdade é terra, incerta e infiel.
Eles seguem por cima dela, numa dança incontida, formando um novo Zodíaco de silêncio e emoção.
Cavalos intemporais, destituídos de fraqueza, despedidos e quebrados em pedaços que não serão recolhidos aos poucos.
Cavalos fragmentados, à revelia. Seus pelos opacos misturados à terra pequena tornam ao grão que o vento ergue confundindo meu corpo que ereto não se desfaz, permanece preso ao chão numa comunhão indesejada.
Esse corpo ruirá, mas antes ver-se-ão capulhos, cavalos e campos absorvidos em si numa intimidade tal que julgar-se-á amor.
E então exibido nu em sua vã beleza iluminada cairá quebrando os signos e desfazendo os sons que estiveram no ar.
segunda-feira, 29 de junho de 2009
Eu, Berenice.
Cheguei, ela já estava lá. Me olhou com olhos curiosos, descobrindo novos olhos.
Respondi a seu desejo e perscrutei aquele rosto. Pálido, fraco, com maçãs artificialmente rosadas.
Os olhos caídos, ressaltados apenas por aquelas sobrancelhas alaranjadas, os cílios e os cabelos no mesmo tom. Mas o que havia de mais bonito nela era aquele nariz, grande e quebrado no início. Combinava com seus olhos mortos.
Enquanto isso ela me examinava. Eu em tudo diferente. Os olhos grandes, a pele escura, o nariz pequeno, os cabelos pretos presos por um coque no alto da cabeça. Certamente exclamou meus cílios.
Cinco segundos, seis no máximo, que não se apressaram em passar. Eu fiquei com um pouco da beleza dela em mim.
Berenice!
Respondi a seu desejo e perscrutei aquele rosto. Pálido, fraco, com maçãs artificialmente rosadas.
Os olhos caídos, ressaltados apenas por aquelas sobrancelhas alaranjadas, os cílios e os cabelos no mesmo tom. Mas o que havia de mais bonito nela era aquele nariz, grande e quebrado no início. Combinava com seus olhos mortos.
Enquanto isso ela me examinava. Eu em tudo diferente. Os olhos grandes, a pele escura, o nariz pequeno, os cabelos pretos presos por um coque no alto da cabeça. Certamente exclamou meus cílios.
Cinco segundos, seis no máximo, que não se apressaram em passar. Eu fiquei com um pouco da beleza dela em mim.
Berenice!
sexta-feira, 26 de junho de 2009
De repente houve outra melodia,
um som de paz entre os lençóis,
entre as pernas despidas.
De repente... ah bendita música!
Nem bossa, nem jazz.
Um outro som, uma outra cadência.
Uma música de fogo com ascendente em touro,
que me falava ao corpo.
E se meus olhos pudessem ser ouvidos soariam
aquela canção tão desacelarada e clara, tão forte.
Eu ouvi a música do ar na pele e a partir de então
a ouviria continuamente.
Essa melodia se converteu num som interno,
meu corpo ganhou um novo ritmo erótico.
Havia luxúria em meus cabelos caídos nos ombros,
nos ossos de meu pescoço,
nas curvas de meus ouvidos.
E eu não pude não me dar.
Não pude evitar a música da carne.
um som de paz entre os lençóis,
entre as pernas despidas.
De repente... ah bendita música!
Nem bossa, nem jazz.
Um outro som, uma outra cadência.
Uma música de fogo com ascendente em touro,
que me falava ao corpo.
E se meus olhos pudessem ser ouvidos soariam
aquela canção tão desacelarada e clara, tão forte.
Eu ouvi a música do ar na pele e a partir de então
a ouviria continuamente.
Essa melodia se converteu num som interno,
meu corpo ganhou um novo ritmo erótico.
Havia luxúria em meus cabelos caídos nos ombros,
nos ossos de meu pescoço,
nas curvas de meus ouvidos.
E eu não pude não me dar.
Não pude evitar a música da carne.
quarta-feira, 24 de junho de 2009
Objetos e estimas.
Eu que nunca fui coerente, hoje faço sentido.
Talvez seja uma fase, que não é boa nem ruim, talvez sejam os anos, que não se cansam em passar, talvez sejam meus olhos pretos. É, eu não sei. As coisas parecem mais calmas, não serenas, apenas calmas e meus dias repletos daquela velha lucidez.
Antes eu tinha um pé no consultório do dr. André. Era mais criativa naquela época, carregava mais malícia, mais furor. Aqueles dias tinham mais som e mais nudez. Hoje fecho portas e falo um pouco mais, um pouco. É menos fácil falar quando tudo é tão claro, não é difícil ver.
Há outro tom, outro espaço dentro do espaço anterior, outras cicatrizes também. Semana passada eu cortei o braço, agora são cinco, mais as do pé, as dos joelhos, as dos cotovelos, a da barriga... perdi as contas, não canto mais. A verdade é que só eu sei o que se faz em mim e não importa a calma e muito menos o que eu diga, eu continuo furiosa.
Talvez seja uma fase, que não é boa nem ruim, talvez sejam os anos, que não se cansam em passar, talvez sejam meus olhos pretos. É, eu não sei. As coisas parecem mais calmas, não serenas, apenas calmas e meus dias repletos daquela velha lucidez.
Antes eu tinha um pé no consultório do dr. André. Era mais criativa naquela época, carregava mais malícia, mais furor. Aqueles dias tinham mais som e mais nudez. Hoje fecho portas e falo um pouco mais, um pouco. É menos fácil falar quando tudo é tão claro, não é difícil ver.
Há outro tom, outro espaço dentro do espaço anterior, outras cicatrizes também. Semana passada eu cortei o braço, agora são cinco, mais as do pé, as dos joelhos, as dos cotovelos, a da barriga... perdi as contas, não canto mais. A verdade é que só eu sei o que se faz em mim e não importa a calma e muito menos o que eu diga, eu continuo furiosa.
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