quinta-feira, 20 de novembro de 2008

Confesso:

Que por muito tempo me senti em casa, me senti cuidada, me senti protegida. Não sabia que pessoas se desprendem, que elas se perdem, que algumas estão sempre perdidas. Que eu era criança.
Que era popular, comunicativa e extrovertida. Que sou discreta, reservada e silenciosa. Que descobri o prazer da introversão.
Que houve um tempo em que eu senti medo. Sensação ruim, que me trazia a impressão de diminuir por dentro, como se o espírito encolhesse! O medo me empobreceu, me mostrou uma humanidade até então desconhecida. Senti medo das ruas, das pessoas, de seus toques, senti medo da morte. Mais que isso, senti medo da vida.
Que ter o mamilo perfurado doi muito mais do que ter a pele tatuada. Que a dor é superfícial, que sinto estrelas pela pele e que ela é perecível, que é só pele.
Que cachorros de rua quebrantam minha austeridade e que jamais vou esquecer a tristeza daqueles olhos verdes ao falar sobre o sabor descoberto, o primeiro cappuccino. Que cheiro de café me enjoa.
Que os beijos foram só beijos, que eles apenas eles e que não costumo me importar. Que nunca acreditei no amor, e que após dois dias de convivência quis casar, ter quatro filhos e morar na Guatemala.
Que me acham ousada, moderna, atrevida e até mesmo uma sentimentalista fingida, que eles não sabem muito...
Que gosto de meus grandes olhos pretos, de meus seios pequenos, que me acostumei com a estranheza de meu rosto, que aprendi a me respeitar.
Que já quis ser modelo, artista plástica, fotógrafa, professora, astronauta, bailarina, escritora, desenhista e que hoje com mais de vinte continuo sem saber o que fazer.
Que para encontrar preciso perder. Conceitos, parâmetros, certezas, verdades absolutas, que preciso subverter, romper.
Que gosto de luxúria, de poder, de prazer, mas que nada é tão gostoso quanto andar descalça, tomar banho de chuva e ficar em casa no fim de semana vendo filme.
Que já quis fazer poesia concreta, mas elas me dão a impressão de serem palpáveis, que pensei na metalinguística, em versos decassílabos e descobri que não sei fazer poesia.
Que amo alguém de forma incondicional, que algumas vezes brinco de autismo, mas que na maioria delas não estou
Que não sou uma pessoa tão maravilhosa, aliás não sou nem um pouco maravilhosa. Que as pessoas que convivem comigo gostam de mim, mas não sei até que ponto isso se deve ao que realmente sou, é inevitável que elas me vejam como querem e aos poucos vou me transformando nisso e naquilo.
Que sempre há quem diga que sou enigmática e eu garanto que não faço por querer, mas há sim coisas sobre mim que ninguém precisa saber. Que os contos de fadas já não me atraem e que a revolucionária que há em mim tem preguiça e não busca uma causa para defender.
Que não tenho medo, tenho solidão.

5 comentários:

Unknown disse...

Simplesmente me sinto diante de vc ao ler isso,Maria.

Unknown disse...

morar na Guatemala... Bem acompanha, quem não quer?!

. disse...

Wal!
... e quem não quer?
(:

Anônimo disse...

muitos compartilham deste mesmo sentimento, nem mesmo na solidão estamos sozinhos. Pq? sei lá!"A solidão é o mal do seculo..."
Parabéns pelo blog q cada dia fica melhor.

. disse...

Mal?! Bem. Solidão é qualidade e só o é se for a sós.
(: